Cocaína e açúcar: qualquer semelhança não é mera coincidência

Quando terminei meu tratamento de câncer de mama em 2014, começaram os exames de controle. Eu nunca tinha lido muito sobre o Pet CT, só sabia que ele mostra locais onde existem áreas de células com alto turn over, ou seja, locais onde haja células em rápida proliferação. Para mostrar essas áreas, é injetada uma substância chamada 2-[F18]-fluoro-2-deoxi-glicose, onde o Flúor é o elemento radioativo e a glicose o composto químico.

Uma pequena quantidade deste açúcar radioativo é injetada no paciente e, após um período de captação, são realizadas as imagens. O PET scan capta os sinais de radiação emitidos pelo Flúor-18 transformando-os em imagens e determinando assim os locais onde há presença deste açúcar, demonstrando o metabolismo da glicose. O metabolismo da glicose é importante, pois a grande maioria das células tumorais apresenta utilização acentuada de glicose como fonte de energia, em comparação com as células normais. (Fonte: Pubmed)
A dieta pré-exame corta todo tipo de carboidrato, pra evitar grande quantidade de glicose circulante. Quando li tudo isso no Pubmed ( tenho esse “péssimo” hábito de adorar ler artigos desde a Faculdade ), fiquei bem assustada. Eu já tinha lido o livro Anti Câncer ( que super recomendo) e lá, o médico que é o autor do livro, diz que uma dieta anti câncer é uma dieta pobre em carboidratos, justamente pelo fato das células tumorais se “alimentarem” de açúcar. Então, resolvi começar a procurar artigos a respeito. O que eu descobri, e isso é uma triste realidade, é que, lá fora, esse conhecimento já está bem enraizado, enquanto que aqui no Brasil está apenas engatinhando. Os oncologistas não falam muito sobre essa questão da alimentação, muito pelo contrário. Vejo muitos falando para os pacientes que é vida normal.

Desde a época da quimioterapia, eu, que nunca fui fã de doces, comecei a ter uma verdadeira compulsão por todo tipo de doce, mas em especial brigadeiro e doce de leite. Eu não sei se já aconteceu com quem passou pelo tratamento, mas essa cena que vou descrever abaixo, acontecia todo santo dia durante as minhas quimios com o Taxol, as chamadas quimios brancas.

“Duas da manhã. Eu abro o olho e só consigo pensar numa panela de brigadeiro ou num pote de doce de leite com queijo. Sento, bebo água e penso: “Deixa de ser doida. Você não precisa comer isso.” Deitava e não conseguia mais dormir. Depois de uns 20 minutos pensando, pensando, eu levanto devagarinho, pego meu livro que está na cabeceira, fecho a porta do quarto, do corredor, da cozinha, e como uma ‘ladra’, vou pra cozinha, abro o armário, pego uma lata de leite moça escondida lá no fundo por mim mesma (kkkk), pego o Nescau e o desespero é tão grande que faço um pote enorme no micro mesmo. Sento na sala, começo a ler meu livro e comer o negócio quente mesmo. Tão quente que queimava a boca. Depois de um prato, eu me sinto calma, aliviada, sentindo um prazer quase inebriante de comer aquele brigadeiro. Escovo os dentes, volto pra cama e durmo como um anjo.”
Perdi a conta de quantas vezes isso aconteceu durante a quimioterapia e depois, quando comecei o Tamoxifeno. O que mais me irritava é que eu não conseguia descobrir a minha relação com o maldito brigadeiro e por isso, não conseguia me controlar, mesmo sabendo que isso estava me fazendo mal! Mas a ciência explica! E em MUITOS artigos!

Em 2001,os neurocientistas Nicole Avena, agora na Universidade da Flórida, em Gainesville, e Bartley Hoebel, da Universidade de Princeton, começaram a explorar a ideia de se ter uma base biológica. Eles começaram a procurar sinais de vício em animais que eram alimentados com junk food. O açúcar é um ingrediente chave na maioria de junk food, por isso eles ofereceram um xarope da substância a ratos, de concentração similar ao do açúcar presente em um refrigerante comum, por cerca de 12 horas por dia. Ao mesmo tempo, outros ratos eram alimentados com água e comida normal.

Depois de apenas um mês nessa dieta, os ratos desenvolveram mudanças de comportamento no cérebro, identificadas por Avena e Hoebel como idênticas às dos animais viciados em morfina. Eles ainda mostraram um comportamento ansioso quando a calda foi removida.

Os pesquisadores notaram que os cérebros dos ratos liberavam o neurotransmissor dopamina cada vez que tomavam a solução de açúcar, mesmo depois de terem bebido por semanas. A dopamina conduz a busca do prazer –seja comida, drogas ou sexo. É um produto químico do cérebro vital para a aprendizagem, memória e tomada de decisão. “Eu esperava que ela fosse liberada quando eles comessem um alimento novo”, afirma Avena, “não com o que eles já estavam habituados”. Essa é uma das marcas da dependência de drogas. A evidência encontrada foi a primeira concreta de uma base biológica para a dependência do açúcar que inspirou uma série de estudos com animais.

Os resultados estão entre as novidades mais interessantes em pesquisas de obesidade dos últimos 20 anos, de acordo com Mark Gold, autoridade internacional em estudos sobre alcoolismo e chefe do departamento de psiquiatria da Universidade de Medicina da Flórida.

Desde o estudo de Avena e Hoebel, dezenas de outras pesquisas em animais confirmaram os resultados. Mas foram os recentes estudos em humanos os responsáveis pelas evidências em favor da rotulagem de junk food como um vício.

O vício é comumente descrito como um entorpecente dos circuitos de recompensa desencadeado pelo uso excessivo de alguma droga. Isto é exatamente o que acontece no cérebro de indivíduos obesos, segundo Gene-Jack Wang, presidente do departamento médico do US Department of Energy’s Brookhaven National Laboratory, em Upton, Nova York. Em outro estudo publicado em 2001 no periódico “The Lancet”, ele descobriu uma deficiência de dopamina no estriado do cérebro de indivíduos obesos que era praticamente idêntico ao dos dependentes de drogas.

Em outros estudos, Eric Stice, neurocientista do Instituto de Pesquisa do Oregon, descobriu que adolescente magros com pais gordos tinham um surto de dopamina mais forte ao receber uma dose de milk-shake do que os filhos de pais magros. “Há pessoas para quem comer é mais orgásmico”, diz Stice. Quando essas pessoas comem demais, o sistema de recompensa se amortece, tornando a comida menos satisfatória e as motivando a comer mais para compensar – exatamente como acontece com os alcoolatras, por exemplo.

Então aquela história de: “vou comer uma panela de brigadeiro hoje, porque é meu dia de lixo” ou “vou comer só um pedacinho”, é uma grande farsa. Farsa porque você está se enganando e falo isso de cadeira.Na verdade, você nada mais está do que alimentando um vício. E se você não pode por uma colher na boca que acaba se descontrolando, isso é como um viciado em drogas ou em álcool. Não estou dizendo que devamos ser radicais ao extremo, mas tantas pesquisas falando a mesma coisa mais um exame que usa glicose para detectar células tumorais, nos fazem parar pra pensar um pouco sobre os malefícios do açúcar nas nossas vidas, vocês não acham?

 

Déborah Aquino
Positive Coach e Escritora do livro Num Piscar de Olhos
Deborah@blogdadebs.com.br | 11 974430123
youtube.com/atitudemocional
http://www.facebook.com/escoladefelicidadeoficial
Instagram: @debsaquino / @escoladefelicidadeoficial

Proibida reprodução sem autorização legal do autor.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s